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R$ 265 mil que destravam R$ 60 milhões: o modelo que está acelerando as obras do litoral

Grupos de empresários de cinco cidades do litoral norte já colocaram R$ 17 milhões do próprio bolso em estudos e projetos técnicos de obras públicas. O motivo é preciso: sem projeto pronto, obra não licita e verba federal não chega. E o resultado já aparece no chão.

Gabriel Saraiva · Sócio Expansão Habitz 21 de julho de 2026 8 min de leitura
Engenheiros analisando plantas e projetos em um canteiro de obras ao amanhecer, com uma cidade litorânea ao fundo

Imagem ilustrativa gerada por IA

Existe um número que resume bem o que está acontecendo na infraestrutura do litoral norte de Santa Catarina: R$ 265 mil. É o custo do projeto técnico de um novo trevo de acesso ao Porto de Itajaí. A obra em si custa R$ 60 milhões. Ou seja: o documento que destrava a obra vale menos de meio por cento dela.

E foi exatamente aí que a iniciativa privada da região decidiu colocar dinheiro. Segundo levantamento publicado pelo ND Mais nesta semana, grupos de empresários de cinco cidades já aplicaram cerca de R$ 17 milhões do próprio bolso em estudos e projetos de obras públicas. Não em obras: em projetos. E a diferença faz todo o sentido.

O gargalo que ninguém vê

Quando uma obra pública não sai, a explicação mais comum é “falta dinheiro”. No litoral norte, com frequência, o problema é outro: falta projeto.

A Lei de Licitações (14.133/2021) exige projeto básico aprovado e orçamento detalhado antes de qualquer licitação de obra. Sem esse documento na mão, a prefeitura não licita, e também não consegue se habilitar a repasses federais, mesmo quando a verba existe. O projeto é a chave que abre a porta.

Elaborar esse projeto, porém, custa caro para um caixa municipal e concorre com saúde, educação e folha. Resultado: obras necessárias ficam anos paradas na fila do “vamos fazer o projeto”. Foi essa fila que os empresários resolveram furar, pagando a parte mais barata e mais travada do processo.

Quem está colocando dinheiro

CidadeQuem organizaAporte em projetos
Balneário CamboriúInstituto + BC (~40 empresas)mais de R$ 10 milhões
ItajaíInstituto Mais Itajaí (mais de 60 empresas)mais de R$ 6 milhões
Porto BeloACIP (construtores e incorporadores)mais de R$ 1 milhão
Bombinhasgrupo de empresáriosR$ 320 mil
GasparInstituto + GasparR$ 300 mil

O caso de Itajaí mostra a velocidade do movimento: o Instituto Mais Itajaí foi criado em abril de 2025 com 29 empresas e, em cerca de nove meses, já reunia mais de 60 mantenedoras. A ideia se espalhou pela região como um formato replicável, e agora chega a Porto Belo, Bombinhas e Gaspar.

O que já saiu do papel

A melhor prova de que o modelo funciona está em Porto Belo: a primeira etapa dos molhes dos rios Perequê e Perequezinho, com 805 metros e R$ 13 milhões, foi concluída em dezembro de 2024. Obra entregue, com projeto e licenciamento bancados pela associação de construtores local.

Em Itajaí, a lista de projetos entregues é grande:

  • Ligação Praia Brava–BR-101: R$ 2,5 milhões em estudos e projeto executivo (5 km, três faixas por sentido), prontos desde 2025.
  • Trevo de acesso ao porto (BR-101 x SC-412): R$ 265 mil de projeto para uma obra estimada em R$ 60 milhões.
  • Novo terminal de cruzeiros: masterplan elaborado pela WSP, entregue ao Ministério de Portos em março de 2026 e apresentado no Seatrade Cruise Global, em Miami, a maior feira de cruzeiros do mundo.

Em Balneário Camboriú, o instituto bancou a atualização técnica do projeto do Parque Inundável do Rio Camboriú, documento necessário para habilitar o repasse de R$ 73 milhões do Novo PAC, hoje em análise na Caixa. Aqui vale a precisão: o dinheiro da obra é federal; o que o setor privado fez foi entregar a peça que faltava para destravar o pedido.

Por que a região precisa tanto disso

O pano de fundo explica a urgência. O litoral norte cresceu numa velocidade que a infraestrutura não acompanhou. Entre os Censos de 2010 e 2022:

Bombinhas 75,3% Porto Belo 72,2% Itapema 65,8% Camboriú 65,3% Itajaí 44,0% Navegantes 42,7% Brasil 6,45%
Crescimento populacional entre os Censos de 2010 e 2022. Fonte: IBGE.

Enquanto o Brasil cresceu 6,45%, Bombinhas cresceu 75%, Porto Belo 72% e Itapema 66%. E há um detalhe revelador: Balneário Camboriú é a que menos cresce entre as sete cidades da região. A pressão populacional migrou do centro consolidado para as vizinhas, justamente as que têm infraestrutura mais jovem.

Some a isso a BR-101, que registra 70 mil veículos por dia na altura de Balneário Camboriú, segundo dados abertos da ANTT. E o detalhe que mais importa: em janeiro, o movimento fica apenas 7,6% acima da média anual, ou seja, a saturação é estrutural, não sazonal. Não é o verão que trava a rodovia; ela já está no limite o ano inteiro.

O quadro fica completo quando se lembra que, em março de 2026, a negociação sobre a concessão da BR-101 foi encerrada sem acordo no TCU. Foi nesse vácuo que a iniciativa privada decidiu adiantar o que podia adiantar.

A régua do modelo

Vale registrar, com transparência, o ponto que a própria legislação já antecipa: a Lei 14.133 impede que o autor de um projeto dispute a licitação da obra que ele desenhou, regra que o TCU estende a empresas do mesmo grupo econômico. Como boa parte dos mantenedores são construtoras e incorporadoras, a transparência sobre quem vence as licitações que nascem desses projetos é a régua natural de maturidade do modelo.

Até aqui, não há qualquer questionamento formal, seja do Ministério Público, dos tribunais de contas ou das câmaras municipais. O Instituto Mais Itajaí foi, ao contrário, homenageado em sessão solene na Câmara de Vereadores da cidade.

A leitura da Habitz

Esse movimento diz três coisas importantes a quem investe no litoral:

  • A região não está esperando. Diante de um gargalo real de infraestrutura, o setor produtivo local se organizou para acelerar o que dependia de projeto. É uma solução criativa para um problema conhecido, e já produziu obra entregue.
  • Onde o projeto avança, o valor segue. Molhes, acessos, terminal de cruzeiros e parques mudam a lógica de uma cidade. Quem acompanha quais projetos estão prontos enxerga onde a próxima melhoria vai acontecer antes que ela apareça no preço.
  • Cidade com articulação é ativo melhor. Mais do que praia bonita, o que sustenta valor no longo prazo é a capacidade de uma cidade resolver seus próprios gargalos. Balneário Camboriú, Itajaí e Porto Belo estão mostrando que têm essa articulação.

Quando o setor privado paga R$ 265 mil para destravar R$ 60 milhões, ele não está fazendo caridade: está apostando na própria região. Acompanhar de perto onde essas apostas estão sendo feitas, e o que elas destravam, é exatamente o trabalho da Bússola Habitz.

Perguntas frequentes

O que é esse modelo de empresários bancando projetos de obras públicas?

Grupos de empresas se organizam em institutos sem fins lucrativos, contratam escritórios de engenharia e arquitetura para elaborar os estudos e projetos técnicos de obras que a cidade precisa, e doam o material pronto ao poder público. A execução segue o rito normal: análise técnica, licitação e orçamento público. O que o setor privado adianta é a etapa do projeto, que costuma ser o gargalo.

Por que faltar projeto trava uma obra?

Porque a Lei de Licitações (14.133/2021) exige projeto básico aprovado e orçamento detalhado antes de licitar uma obra. Sem esse documento, o município não consegue abrir licitação nem se habilitar a repasses federais, mesmo quando o dinheiro da obra existe. É por isso que um projeto de algumas centenas de milhares de reais pode destravar uma obra de dezenas de milhões.

Quanto já foi investido e por quem?

Segundo levantamento do ND Mais (julho de 2026), são cerca de R$ 17 milhões somando cinco cidades: Balneário Camboriú (mais de R$ 10 milhões, pelo Instituto + BC), Itajaí (mais de R$ 6 milhões, pelo Instituto Mais Itajaí), Porto Belo (mais de R$ 1 milhão, pela ACIP), além de grupos em Bombinhas e Gaspar. O valor é aplicado em estudos e projetos, não na execução das obras.

Quais obras já saíram do papel?

A entrega mais concreta está em Porto Belo: a primeira etapa dos molhes dos rios Perequê e Perequezinho, com 805 metros e R$ 13 milhões, concluída em dezembro de 2024. Em Itajaí, o masterplan do novo terminal de cruzeiros foi entregue ao Ministério de Portos em março de 2026 e apresentado na maior feira de cruzeiros do mundo, em Miami. Outros projetos, como a ligação da Praia Brava com a BR-101, estão prontos e aguardam a etapa de execução.

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