Um bairro de luxo que banca a própria segurança: as Interpraias e o monitoramento com IA
A região das praias mais exclusivas de Balneário Camboriú vai ganhar um sistema de videomonitoramento com inteligência artificial, reconhecimento facial e leitura de placas. O que chama atenção não é só a tecnologia: é quem está pagando a conta, e o que isso revela sobre a nova fronteira de luxo do litoral.
Imagem ilustrativa gerada por IA
Nas praias mais exclusivas de Balneário Camboriú, um grupo de moradores e empresários decidiu não esperar. Em vez de cobrar do poder público mais segurança, eles vão pagar por ela, e com tecnologia de ponta.
A região das Interpraias, faixa de praias preservadas ao sul da cidade (Estaleiro, Estaleirinho, Taquaras, Laranjeiras), vai ganhar um sistema de videomonitoramento com inteligência artificial. O que a notícia revela vai além das câmeras: é um retrato de como a nova fronteira de luxo do litoral está se organizando.
O que está sendo montado
O plano, tocado pela Agência Interpraias, prevê um sistema de vigilância que começa com cerca de 100 câmeras e mira 300 nos próximos anos, cobrindo os cerca de 10 km² da região. As características, segundo a imprensa catarinense:
- Monitoramento 24 horas por dia.
- Reconhecimento facial e leitura automática de placas de veículos.
- Integração com câmeras de residências e comércios da região, e articulação com a Guarda Municipal e a Polícia Militar.
O investimento é estimado em cerca de R$ 720 mil ao longo de dois anos, valor que a associação ainda está arrecadando (a entidade obteve o CNPJ recentemente e começou a estruturar a captação). É, portanto, um projeto em formação, mas com direção clara.
O detalhe que muda a história: quem paga
Este não é um “Big Brother” instalado pela prefeitura na avenida central. É uma iniciativa privada, custeada pelos próprios proprietários e incorporadoras das Interpraias, e liderada por um nome do setor imobiliário: Maurício Girolamo, presidente da Agência Interpraias e CEO de uma incorporadora da região.
E é aí que a notícia fica interessante para quem investe. Quando os donos de uma região decidem tirar do próprio bolso para bancar segurança inteligente, eles estão dizendo algo sobre o valor do que têm ali. As Interpraias são a fronteira do altíssimo padrão de BC: praias de baixa densidade, natureza preservada, empreendimentos de escala milionária. Segurança, nesse contexto, não é despesa; é parte do produto.
Onde a segurança encontra o valor
Vale a leitura precisa que a gente sempre faz. As projeções de que o sistema vai “valorizar a região” existem, mas vêm justamente de quem financia o projeto e vende imóvel ali, então tratamos como o que são: a aposta de quem está pagando a conta, não um dado independente.
O que é sólido e neutro é o pano de fundo. Santa Catarina é o estado mais seguro do Brasil, com a menor taxa de homicídios do país, 9 por 100 mil habitantes, segundo o Atlas da Violência 2025 (dados de 2023). E Balneário Camboriú não é novata em tecnologia: a cidade estreou reconhecimento facial em câmeras em 2019 e mantém um projeto municipal próprio de videomonitoramento, separado do das Interpraias.
Num mercado em que o comprador de alto padrão pode escolher qualquer praia do Brasil, segurança percebida é um diferencial concreto. Não porque um estudo garanta X% de valorização, mas porque tranquilidade é exatamente o que esse público procura, e está disposto a pagar.
O outro lado: privacidade e LGPD
Seria incompleto contar essa história só pelo lado bom. Sistemas de reconhecimento facial em espaços de circulação pública abrem um debate legítimo sobre privacidade e proteção de dados. A LGPD trata a biometria facial como dado pessoal sensível, com regras reforçadas, e o tema ganha uma camada extra quando quem opera a captura é um ente privado, e não o Estado.
Não há, até aqui, nenhum questionamento formal ao projeto das Interpraias. Mas é o tipo de iniciativa que o próprio setor precisará conduzir com transparência sobre o uso e a guarda das imagens. Vale acompanhar.
A leitura da Habitz
O caso das Interpraias diz mais sobre o mercado do que sobre câmeras:
- A zona sul de BC está se assumindo como o topo. Quando uma região se auto-organiza para bancar a própria infraestrutura de segurança, ela está se posicionando como endereço premium. É o mesmo movimento que vimos na Ponte Barra Sul: o poder público e o privado pavimentando o caminho da zona sul.
- Segurança é qualidade de vida, e qualidade de vida é fundamento. Ignore os percentuais de valorização prometidos por quem vende. O que sustenta valor no longo prazo é o conjunto: praia preservada, baixa densidade, e agora um esforço organizado por segurança. Isso é produto, não folder.
- Preste atenção em quem investe do próprio bolso. Incorporadores e proprietários colocando dinheiro em segurança inteligente é um sinal de confiança na região, ainda que interessado. Sinais assim costumam anteceder o preço.
Uma faixa de praias que decide se cuidar sozinha está dizendo, na prática, que se enxerga como um lugar que vale a pena proteger. Ler esse tipo de sinal, e separar o fundamento real da promessa de quem vende, é exatamente o trabalho da Bússola Habitz.
Perguntas frequentes
O que é o projeto de videomonitoramento das Interpraias?
É um sistema de câmeras com inteligência artificial planejado para a região das Interpraias, em Balneário Camboriú (as praias do sul, como Estaleiro, Estaleirinho, Taquaras e Laranjeiras). O plano prevê começar com cerca de 100 câmeras e chegar a 300 nos próximos anos, com monitoramento 24 horas, reconhecimento facial e leitura de placas de veículos. É uma iniciativa privada, da Agência Interpraias, financiada por proprietários e incorporadoras da região, e não um projeto da prefeitura.
Quem paga por esse sistema?
A própria iniciativa privada da região. O custeio é coletivo, com recursos de proprietários de imóveis e incorporadoras das Interpraias, organizados pela Agência Interpraias de Desenvolvimento Sustentável. Não é dinheiro público nem parceria público-privada. O investimento estimado é de cerca de R$ 720 mil ao longo de dois anos, valor ainda em fase de arrecadação.
Balneário Camboriú é uma cidade segura?
Santa Catarina é o estado mais seguro do Brasil, com a menor taxa de homicídios do país (9 por 100 mil habitantes), segundo o Atlas da Violência 2025 (dados de 2023). Balneário Camboriú, além disso, já investe em tecnologia de segurança há anos: estreou reconhecimento facial em câmeras em 2019 e tem um projeto municipal próprio de videomonitoramento, separado do das Interpraias.
Câmera de segurança valoriza imóvel?
Segurança e qualidade de vida são fatores que pesam na decisão de quem compra, especialmente no alto padrão. Mas vale honestidade: não existe estudo independente medindo quanto um sistema de câmeras valoriza os imóveis do entorno, e as projeções de valorização que circulam vêm justamente de quem financia o projeto e vende imóvel na região. O ponto sólido é outro: a segurança percebida é parte do produto que a zona sul de BC está construindo.
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